Cinema

Abra o olho: Bird Box e a Cultura da Solidão

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Na semana em que a Netflix anuncia a marca de 80 milhões de visualizações para “Bird Box”, seu mega lançamento de fim de ano, o filme de terror continua a conquistar uma jovem audiência conectada, com uma mensagem que salta aos olhos (de quem ainda os mantém abertos) e que comunica intensamente com essa geração que abre mão de esparramar pipoca no cinema lotado e subestima a experiência de assistir bons filmes na companhia de gente de carne e osso. Gente que grita, chora, sorri, se emociona juntos. “Bird Box” fala para solitários que navegam a rede de computadores, garimpando downloads que substituam o toque, a troca, o tranco que a decisão de olhar para os outros costuma causar. É através do olhar que a lição de “Bird Box” penetra, invadindo o ‘firewall’ do medo de compartilhar a vida com o próximo:

“Feche os olhos para os seus monstros e abra os olhos para quem está ao seu lado.”

A mensagem é prenunciada na primeira parte do filme, quando a personagem Malorie, interpretada pela polida Sandra Bullock, explica para sua irmã o significado do quadro que está pintando, inspirado n’A Última Ceia’ de Da Vinci. Na cena, ela enfatiza sobre o tema da obra de arte:

– “A solidão é incidental. É sobre a inabilidade das pessoas de se conectarem.”

Solidão essa, resultante dos vínculos fragilizados pela internet e dispositivos digitais que levam as pessoas a desvalorizar conexões físicas autênticas. Nas próximas cenas vemos pessoas grudadas no celular, mergulhadas em suas vidas virtuais cheias de vazio. São estas as primeiras que vemos serem afetadas pela intrigante onda de suicídios que os jornais noticiam. Curiosamente os programas de tv alertam para “evitar as mídias sociais”.

Malorie descobre estar grávida e rejeita a iminente maternidade, que passa a ser um monstro que ela se recusa a enfrentar. Ela prefere fechar os olhos ao fato de que será mãe solteira, responsável por uma nova vida. Seus problemas com pai e mãe afloram. A propósito, os seres misteriosos que aterrorizam o mundo de “Bird Box” e levam as pessoas a se suicidarem, parecem personificar as angústias e horrores internos, os traumas pessoais de cada um. Minha melhor aposta para metáfora do monstro invisível, é a própria Netflix, a empresa de streaming que se tornou o terror da indústria cinematográfica e que ameaça engaiolar a criatividade de muitas mentes esvoaçantes ao impor uma agenda tirânica que unilateralmente engendra uma lista limitada de filmes disponíveis e produz conteúdos tendenciosos, projetando o suicídio artístico de vários realizadores do cinema. Essa novela da vida real tem polêmica para várias temporadas…

Brincadeiras à parte, um outro tema relevante do filme é o suicídio, que se tornou a segunda maior causa de morte no planeta entre jovens de 15 a 29 anos – a primeira é a violência. Independente dos sofrimentos existenciais que atormentam os suicidas, as pesquisas indicam que a solidão se tornou mais mortal entre os jovens do que as drogas e as doenças. O sentimento de isolamento entre pais e filhos tem provocado altos níveis de depressão. É espantoso como a solidão por vezes é enaltecida como uma dieta que purifica das misérias mundanas e da realidade supérflua. As relações líquidas e superficiais proliferam inversamente proporcionais à intimidade e cumplicidade entre pessoas, que pode ser cultivada por simples gestos como o de assistir um filme juntos. Na cultura da solidão, esta é considerada imprescindível para a contemplação do eu. Fatalmente a solidão constrói uma prisão da alma que impede o amadurecimento e o florescer da fé.

“Bird Box” faz questão de acreditar nos improváveis companheiros de jornada que dão abrigo à mãe solteira, fugindo das criaturas que trazem à tona o pior dos seus segredos. Com o tempo ela aprende a olhar para quem está do seu lado e se engajar na cura das relações, reconhecendo seu papel de mãe protetora e não carcereira dos filhos, e capaz de libertar da gaiola a esperança, o amor e os sonhos aprisionados e amedrontados pelo desafio que é viver e ser feliz em família. Pessoas podem gerar transformações profundas no ambiente ao seu redor quando decidem não fechar os olhos para a natureza relacional humana. É urgente, abrirmos os olhos para abraçar e ser abraçado numa comunidade.

Diego é publicitário, DJ, produtor musical e especialista em marketing digital. Faz parte do time Ativa FM e está responsável pelo caderno tecnologia.

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