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Dia Nacional do Rádio: histórias de um meio em constante evolução

Em homenagem a um dos meios de comunicação mais democráticos e antigos do país, o GPS|Lifetime conversou com amantes e profissionais da área sobre a evolução da radiodifusão

Foto: PIXABAY/DIVULGAÇÃO
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Nesta sexta-feira, 25 de setembro, é comemorado o Dia Nacional do Rádio. Apaixonados por rádio sempre têm uma boa história para contar. Seja sobre narrações inesquecíveis, radionovelas ou músicas marcantes que foram conhecidas por meio dos alto-falantes do aparelho. No Brasil, a história do rádio é antiga, oficialmente datada de em 7 de setembro de 1922, dia em que o presidente Epitácio Pessoa fez a primeira transmissão à distância, sem fios, na inauguração da radiotelefonia brasileira. No entanto, o rádio só começou a operar para valer em 30 de abril de 1923.

De lá para cá, muitas histórias, acontecimentos, auges e declínios foram vivenciados. Porém, é inegável que foi por meio da radiodifusão que muito da comunicação que é consumida hoje foi desenvolvida. Elmo Francfort, Coordenador do Memória ABERT, da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, aponta que sem o rádio não seria ao menos possível comemorar os 70 anos da TV no Brasil, celebrado no último dia 18 de setembro.

“Foi do rádio que saíram a maioria dos profissionais que construíram a televisão brasileira, como também os empresários que bancaram tal façanha, como Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Paulo Machado de Carvalho, Victor Costa e muitos outros. Se não fosse a experiência desses profissionais, do meio radiofônico, não teríamos esteio e base para criar a tevê que se conhece hoje”, diz Elmo.

Apesar de sua importância, há quem acredite que o meio de comunicação está com os dias contados devido ao espaço que perdeu para a televisão e internet, visão que o coordenador da ABERT considera irreal. Segundo ele, toda vez que um novo meio chega, sempre há adaptações, mas nunca morte. “O rádio precisou entender o que daquilo que fazia era mais genuíno, mais vital, mais necessário. Descobriu na emoção e eloquência de sua locução esportiva um diferencial; viu no humor a imaginação da falta da imagem dando um alento aos ouvintes presos no carro; abriu espaço também para análise, entrevistas, debates, tornando-se mais opinativo; deu asas à imaginação apenas usando vozes e sons”, analisa.

Para ele, ao longo dos anos, houve soma e nunca subtração. Apesar de, de fato, ter perdido espaço no ponto de vista de audiência e faturamento, o meio radiofônico entendeu quais ferramentas poderiam ser incorporadas do novo cenário, uma evolução constante. Da migração do AM para o FM, incorporação de rádio nos celulares e aplicativos, às transmissões de programas por meio da internet ou via streaming, ganhou-se interatividade e possibilidades.

Protagonismo na radiocomunicação brasiliense 

Valter Lima

Quem vivenciou todo esse processo de perto, como é o caso do radialista Valter Lima, que de 66 anos de vida, dedicou 40 à radiodifusão, diz que o rádio nunca irá morrer. “O rádio forma gerações. É até difícil falar dele, pois a impressão que tenho é que ele está atrelado de forma inerente ao ser humano. Quanto mais o tempo passa, mais esse veículo se transforma, ganha dinamismo e cala quem um dia acreditou que ele seria extinto, quando na verdade, ele se consolida como uma produção imbatível, incorporando e se adequando sempre às novas tecnologias”, analisa.

No quadradinho, é impossível falar sobre radiodifusão sem citar Valter Lima. Ao longo da carreira, o radialista passou por diversos veículos e, inclusive, ajudou a fundar programas e canais que fazem parte do cenário da radiocomunicação brasiliense. Sua trajetória se iniciou na extinta Rádio Alvorada, atual Jovem Pan, onde foi o precursor do Polícia nas Ruas. Na Rádio Nacional, local onde construiu grande parte de seu legado, chegou a ocupar o cargo de chefe executivo.

Mas foi entre 2002 e 2003 que fez uma de suas maiores contribuições à capital: ajudou a dar vida ao projeto que deu origem à Rádio Justiça, um dos principais canais de informações do judiciário brasileiro. Além disso, fez parte da formação de inúmeros profissionais que se apaixonaram e compartilharam da sua devoção para com o rádio.

Hérica Cristian

Hérica Cristian foi estagiária de Valter Lima na antiga Rádiobrás, atual EBC,  há 25 anos e conta que com ele aprendeu a importância da democratização da informação que é até hoje, um dos maiores pilares da radiocomunicação. “Ele me mostrou que o rádio é um dos veículos que chega nos quatro cantos do país, em lugares onde muitas vezes, nem energia tem. Por isso, a linguagem que deve ser entendível para os ouvintes mais simples e mais humildes”, pontua.

Para a jornalista, esse meio de comunicação ocupa não apenas um espaço de informação, mas de companhia e afeto. Ela conta que se lembra de muito pequena ouvir a avó conversando com os interlocutores de rádio que gostava de escutar, mesmo que eles não pudessem, de fato, ouví-la. “Quem aprende a gostar de rádio não o abandona. O ouvinte é fiel, ele vivência e percebe quando há nervosismo, entusiasmo, mesmo sem imagem, tudo por meio do som”, pontua.

Uma relação de afeto

Rodrigo Resende

A memória mais antiga da relação que Rodrigo Resende nutre com o rádio remota de sua infância. Junto ao pai, de quem herdou a paixão por esportes, o comunicador escutava as transmissões de jogos de futebol por meio do pequeno rádio portátil, à pilha, que a família possuía quando moravam na cidade de São João Del Rei, em Minas Gerais. “Lembro-me de ficar fascinado pela capacidade que os narradores tinham de transmitir aquilo com tanta criatividade, apenas usando o som”, relembra.

Quando cresceu, Rodrigo carregou a memória afetiva dos incontáveis dias nos quais compartilhou a escuta com o pai para decidir sua profissão: jornalista de rádio. Ao longo da graduação, ele uniu paixões e trabalhou em diversos veículos do meio, sempre falando de esportes. Mas foi em em 2009, quando prestou um concurso para a Rádio Senado e foi aprovado, que sua paixão o trouxe para terras brasilienses.

Defensor fervoroso do rádio, ele analisa que esse meio de comunicação sempre esteve com “com a corda no pescoço” na cabeça do imaginário popular, mas que isso está longe de ser uma verdade. “Diversas vezes ao longo da história houveram momentos em que disseram ‘agora o rádio acaba’, ‘dessa vez ele não aguenta’, vimos isso com o surgimento da tevê, do cinema e mais recentemente com a internet. O que pouca gente observa é a capacidade que o rádio tem de evoluir, justamente incorporando essas novas ferramentas. É um meio em constante transformação”, observa.

Para ele, as transformações são nítidas. Se de início, os ouvintes mandavam cartas, com o tempo eles puderam passar a telefonar, até chegar ao ponto atual onde o audiente manda um WhatsApp para o interlocutor, enquanto assiste à toda movimentação do estúdio por meio da transmissão via internet. “O que acontecer daqui 50 anos, o rádio vai estar junto”, garante.

Novos formatos, novos tempos 

Não há como falar sobre novos formatos de informação por meio do áudio sem analisar o fenômeno dos podcasts. Segundo dados do Spotify, uma das principais plataformas de streeming de áudio do mundo, o público que consome podcasts no aplicativo corresponde à 21% da base de mais de 299 milhões de ouvintes mensais.

Para quem vivencia o meio, os podcasts são apenas uma forma diferente de consumo dos produtos que antes eram exclusivos do rádio — podcast e rádio não são correntes, mas sim parceiros. “É uma inovação que perpetua o trabalho que o rádio faz. No passado, o que era produzido ia ao ar e sumia, apesar de existirem veículos com um acervo riquíssimo, isso não era a realidade de muitas rádios espalhadas pelo Brasil. Além de um conteúdo diferente, outra linguagem, os podcasts criaram um acervo de fácil acesso aos ouvintes. Para mim foi uma descoberta”, analisa o radialista Valter Lima.

Poliana, Larissa e Sara criaram o podcast Cine Aspectos. Na foto, entrevista com Karim Ainouz, diretor de “A Vida Invisível”

A vantagem observada é que os podcasts não encontram a barreira do tempo, já que não há uma grade de programação. Para o comunicador Rodrigo Resende, o podcast não é uma evolução da radiocomunicação, mas um complemento. “São tipos diferentes de fazer conteúdo. A rádio não precisa acabar para o podcast existir assim como o contrário também é válido. Eles caminham juntos oferecendo uma série de produtos, como se os podcasts fossem a netflixação do rádio, oferecendo material sem as amarras do tempo”, examina Rodrigo.

Do ponto de vista de quem produz, os podcasts trazem ainda a missão de rejuvenescer os ouvintes de produtos de áudio. Para Poliana Tais De Sousa Fontenele, 23, à frente do Cine Aspectos, podcast brasiliense sobre cinema, que criou junto às amigas Larissa Largo e Sara Graziella há 10 meses, a possibilidade de criar conteúdo para plataformas de áudio traz um novo olhar sobre produtos do gênero, em especial para os mais jovens.

Assim como no rádio, Poliana conta que o público que consome podcasts é bem fiel, porém seleto, algo que não foge muito a tendência de segmentação do consumo de conteúdo que vem sendo adotado atualmente. “É uma mídia difícil de conseguir público e não gera tanto engajamento como outros formatos, mas já colhemos bons frutos do nosso trabalho. Além de já termos conquistado um público que consome o nosso produto, já trouxemos convidados como Karim Ainouz”, alegra-se. Na época um filme do diretor, o Vida Invisível, havia acabado de ser indicado como o representante do Brasil na disputa por uma vaga na categoria “Melhor Filme Estrangeiro” no Oscar 2020. “Foi uma grande conquista”, lembra Poliana.

Se o rádio está morrendo? Nas palavras de quem dedicou uma vida ao meio de comunicação, esse é apenas o começo. “Independentemente do formato, se ou no dia que o homem chegar em outro planeta, tenho certeza que o rádio estará presente, ele acompanhará as conquistas humanas. Viva o rádio e com certeza você se tornará mais um apaixonado por ele”, diz o radialista Valter Lima.

Feliz Dia Nacional do Rádio! E ah, sintoniza aí! 

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